Invepar: disputa nos bastidores pelo Aeroporto de Guarulhos

História da Invepar e Suas Conquistas

A Invepar, criada em 2000, visava se estabelecer como um dos principais nomes no setor de infraestrutura no Brasil. O próprio nome, Investimentos e Participações em Infraestrutura, reflete essa ambição desde o início. A holding teve como fundadores a Previ, que é o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e o Grupo OAS. Nos seus primeiros anos, a empresa concentrou esforços na aquisição de concessões estratégicas, incluindo rodovias e projetos de mobilidade urbana.

Em 2009, a companhia ampliou seu capital com a entrada de outros grandes investidores como as fundações Petros (dos funcionários da Petrobras) e Funcef (dos empregados da Caixa), que ajudaram a financiar uma expansão significativa. Com isso, a Invepar não só conquistou o controle sobre a Linha Amarela no Rio de Janeiro mas também assumiu a operação do MetrôRio e entrou em diversas parcerias internacionais, como a que teve com a sul-africana ACSA, para a gestão do Aeroporto de Guarulhos, que se tornaria um de seus principais ativos.

Durante a década de 2010, a gama de concessões da Invepar cresceu, chegando a incluir diversas rodovias, aeroportos e operações de mobilidade urbana em outros países como o Peru. Esta rápida expansão, entretanto, começou a mudar à medida que crises econômicas e a Operação Lava Jato impactaram fortemente as operações do Grupo OAS, levando à uma série de reestruturações e vendas de ativos.

Invepar

A Crise Financeira e a Venda de Ativos

Nos últimos anos, a Invepar enfrentou uma realidade financeira delicada. Embora tenha expandido seu portfólio no passado, as dificuldades surgiram com a venda de ativos visando a quitação de dívidas. A empresa optou por se desfazer de várias de suas operações, incluindo a venda de sua participação na Concessionária Litoral Norte e de sua operação no Peru, entre outras. O objetivo era gerar caixa para enfrentar um passivo que se aproximava de R$ 1,4 bilhão.

Essa venda de ativos, embora necessária, resultou em um encolhimento significativo do portfólio da Invepar, mantendo, porém, os passivos e contingências do passado. A consequência mais evidente dessa reestruturação foi a fragilidade financeira mantida pela empresa, que levou a discussões sobre o futuro de seus negócios, em particular o controle do Aeroporto de Guarulhos.

O Papel do Aeroporto de Guarulhos na Estratégia

O Aeroporto Internacional de Guarulhos é considerado o maior e mais movimentado do Brasil, representando um ativo vital para a Invepar. Atualmente, a companhia detém 80% do capital da Grupar, que por sua vez controla 51% da concessionária do aeroporto. Essa estrutura confere à Invepar um controle indireto de 40,8% sobre o aeroporto, tornando-o seu principal ativo e fonte de receitas significativas.

No primeiro semestre de 2026, Guarulhos movimentou 23,2 milhões de passageiros, um aumento de 4,1% em relação ao ano anterior, resultando em receitas de R$ 2,24 bilhões oriundas de tarifas e serviços adicionais. A dependência da Invepar em relação ao desempenho financeiro do aeroporto torna este ativo ainda mais central à discussão sobre seu futuro, especialmente em tempos de reestruturação e potenciais mudanças no controle da empresa.

Proposta do Bradesco: Uma Oportunidade ou Risco?

Diante da crise, o Bradesco, um dos principais credores da Invepar, apresentou uma proposta de capitalização que gerou descontentamento entre os acionistas. A proposta inclui injeção de capital, reestruturação de dívidas e, intrigantemente, a possibilidade de conversão de dívidas em ações da empresa.

O plano implica em um aporte inicial de R$ 200 milhões por um fundo de investimento em participações que o Bradesco administraria, em troca de 25% da Invepar. O fundo também poderia indicar membros para a diretoria, incluindo o CEO e o diretor financeiro da GRU Airport. Embora a proposta seja defendida como uma medida para proporcionar estabilidade financeira à Invepar, críticos argumentam que isso possibilitaria uma condição favorável para que o banco tomasse o controle da empresa por um valor considerado baixo.

A Reação dos Acionistas da Invepar

A proposta do Bradesco dividiu os acionistas existentes da Invepar, que incluem a Previ, Petros, Funcef e o fundo Yosemite. A resistência e o ceticismo em torno da capitalização evidenciam uma falta de consenso sobre o futuro da empresa.

As duas fundações, Petros e Funcef, que se opuseram à proposta, expressaram preocupações sobre a possível perda de controle e o aumento de influência do Bradesco nas operações. Esse dissenso resultou em um impasse nas assembleias da empresa, onde qualquer decisão sobre aprovar alterações no capital levou a um empate.

Estratégias de Reestruturação da Holding

A Invepar procura alternativas mais flexíveis que não a venda de seu principal ativo, o Aeroporto de Guarulhos. Parte das estratégias envolve a reestruturação interna que irá facilitar a negociação e a obtenção de novos investimentos. Contudo, a necessidade de pagar dívidas antigos e as condicionantes propostas pelo Bradesco podem desviar a companhia de sua trajetória mais focada em ativos se não forem bem administradas.

As reestruturações financeiras envolvem mais do que apenas injeção de capital, exigindo também auditorias detalhadas e um planejamento estratégico que garanta a viabilidade a longo prazo da holding, em um mercado cada vez mais competitivo e carregado de regulamentações.

A Importância da Negociação entre Credores

O diálogo entre as partes interessadas é crucial para o futuro da Invepar. A interação entre credores, especialmente o Bradesco, e acionistas deve ser favorecida para garantir uma solução viável e que traga segurança aos envolvidos. À medida que as tomadas de decisão são feitas, uma gestão aberta e colaborativa pode ajudar a encontrar espaços de acordo que atendam tanto as exigências financeiras da companhia quanto os interesses dos acionistas.

Desafios e Oportunidades para o Futuro

Os desafios enfrentados pela Invepar são grandes, particularmente no que diz respeito à normalização de suas operações financeiras e à necessidade de tomar decisões estratégicas assertivas. Porém, no horizonte também podem emergir novas oportunidades, como a revitalização do mercado de infraestrutura no Brasil, que pode oferecer novos contratos e concessões que poderiam reverter a dinâmica da companhia.

A Invepar precisa explorar essas oportunidades enquanto lida com sua dívida atual e se reestrutura de maneira a maximizar o desempenho do Aeroporto de Guarulhos.

Perspectivas para o Aeroporto de Guarulhos

O Aeroporto de Guarulhos continua sendo um ativo central na estratégia da Invepar, trazendo significativas receitas que podem alterar a situação financeira da empresa. As perspectivas para o aeroporto são positivas com o aumento do fluxo de passageiros e o crescimento da demanda por serviços. Contudo, um gerenciamento eficaz é crucial para transformar esse potencial em realidade, o que se torna ainda mais desafiador no contexto de reestruturações e mudanças de controle.

Impactos da Disputa no Mercado de Infraestrutura

A briga interna pela gestão da Invepar e as incertezas financeiras têm repercussões para o mercado de infraestrutura como um todo. A possibilidade de mudança no controle da concessionária do aeroporto pode atrair a atenção de outros investidores e interessados em concessões. Essa instabilidade pode, entretanto, afetar a confiança no setor e o fluxo de novos investimentos, tornando o contexto ainda mais complexo e desafiador em um tempo de recuperação pós-pandêmica e redemocratização econômica.